Espaço para comunicar erros nesta postagem
Apesar dos progressos recentes, o Brasil ainda se esforça para alcançar as metas de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV), e essa dificuldade é particularmente acentuada no Acre.
No ano passado, enquanto a média nacional de cobertura vacinal atingiu 86% para meninas e 74,5% para meninos, no estado da região Norte, esses índices foram de 59% e 50%, respectivamente, os mais baixos entre todas as unidades federativas.
Uma das principais razões para essa situação remonta a um incidente em 2017, quando 74 adolescentes acreanos manifestaram sintomas variados, desde dores de cabeça a desmaios e convulsões, após receberem o imunizante.
Uma investigação minuciosa demonstrou que os componentes da vacina não foram a causa dos problemas. No entanto, o episódio teve grande repercussão nacional e foi explorado por uma campanha de desinformação.
Renata Quiles, atual coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, fazia parte da equipe de gestão na época e acompanhou de perto todo o desdobramento da situação:
“Até 2017, tínhamos 14 casos notificados de possíveis efeitos adversos de diversas naturezas, como dor de cabeça, dor local ou desmaio, todos investigados prontamente. Em seis meses, passamos de 14 para 127 casos notificados devido a um comportamento coletivo, impulsionado pela mídia e pelo medo natural da população”, relembra ela.
Uma força-tarefa substancial foi mobilizada para investigar o ocorrido, tanto verificando os lotes das vacinas em busca de irregularidades quanto examinando os adolescentes para um diagnóstico preciso.
Doze jovens com os sintomas mais severos foram encaminhados à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde passaram semanas submetidos a uma série de exames complexos, incluindo videoeletroencefalograma.
Estresse vacinal
Os especialistas da USP concluíram que dois irmãos apresentavam epilepsia de origem genética, e os demais sofriam de uma resposta física involuntária ao estresse, conhecida como crise psicogênica não epiléptica (CNEP).
Isso significa que os sintomas não foram causados pela vacina, mas sim pelo estresse associado ao ato da vacinação, somado a outras questões pessoais e familiares.
Em uma nota conjunta, as Sociedades Brasileiras de Pediatria e de Imunizações explicam que a CNEP é uma das manifestações de reações de estresse vacinal documentadas desde 1992 em diversos países e relacionadas a diferentes imunizantes.
Contudo, elas enfatizam que não há qualquer relação biológica com os componentes das vacinas. Segundo as entidades, não se trata de simulação ou exagero, mas de uma condição real que pode até se tornar crônica. No entanto, alertam:
“Cada vez mais, a literatura médica descreve a influência negativa das redes sociais como meio de propagação de conteúdos que agem como modelagem ou fatores de gatilho para o surgimento de novos casos. Esses canais também são o meio mais comum pelo qual o movimento antivacina influencia a população com informações falsas sobre as reações psicogênicas, atribuindo a elas um caráter ‘sequelar’ causado pelo imunobiológico.”
De acordo com Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, o movimento antivacina de fato se aproveitou do episódio no Acre, disseminando o medo pelo restante do país.
Muitos pais já demonstravam resistência à vacina, acreditando que ela poderia estimular a “sexualidade precoce”, simplesmente porque a principal via de transmissão do HPV é sexual. Essa combinação se mostrou explosiva.
“A vacinação estava a todo vapor, obtendo grande sucesso, e, para usar um termo dos jovens, depois disso, a vacina de HPV ‘flopou’.”
Essas questões levaram ao fim da vacinação em escolas, e sabemos que a melhor estratégia para imunizar adolescentes é no ambiente escolar, pois eles raramente procuram os serviços de saúde”, lamenta Mayra.
O impacto foi ainda mais devastador no Acre, conforme Renata Quiles. Em 2018 e 2019, menos de 10% dos adolescentes do estado compareceram aos postos para se vacinar.
“O caso teve muita repercussão, mas não tive a mesma oportunidade de divulgar as conclusões, de mostrar o resultado da investigação da USP que confirmou que nada estava relacionado à vacina”, lamenta a coordenadora.
Eventos adversos
Renata e Mayra ressaltam que eventos adversos são comuns e esperados para qualquer medicamento, incluindo vacinas. O que determina a disponibilização desses produtos à população é a gravidade dos episódios e a avaliação de que os benefícios superam os riscos.
Essa análise é estabelecida na fase de testes e continua sendo monitorada após o uso em larga escala pela população.
No caso da vacina contra o HPV, essa equação é indiscutível, segundo Aline Okuma, gerente médica de vacinas da farmacêutica MSD:
“A taxa de evento adverso é baixa e a efetividade é extremamente alta, de 90% ou mais. Já temos estudos em alguns países mostrando que a incidência do câncer por HPV tem diminuído após a introdução da vacina. Vemos o sucesso.”
A MSD produz a vacina oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em parceria com o Instituto Butantan.
“Temos 20 anos de estudos e acompanhamento dessa vacina, monitorando todos os riscos e benefícios. O câncer por HPV é uma doença que pode surgir de forma muito silenciosa, podendo não ser detectado. A prevenção é essencial”, complementa Aline.
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Mayra Moura, explica que o Brasil possui um sistema de farmacovigilância que acompanha todos os Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (ESAVIs) notificados pelos serviços de saúde. A maioria são sintomas leves, já descritos nas bulas das vacinas, como dor no local da aplicação e febre.
“Os eventos graves passam por uma investigação coordenada pelo Ministério da Saúde, com a participação do município e do estado, para tentar compreender, com exames, histórico de saúde e medicamentos concomitantes que a pessoa utilizou. Após o levantamento de todas as informações possíveis, é feita uma análise de causalidade para definir se há uma relação de causa entre a vacina e aquele evento.”
Na maioria das vezes, essa causalidade não é comprovada, e a conclusão é de que a relação é apenas “temporal”. Ou seja, como a pessoa manifestou os sintomas após tomar alguma vacina, ela deduz que foram provocados pelo imunizante.
Mas trata-se de uma coincidência. Os sintomas tiveram outra causa e provavelmente ocorreriam mesmo se a pessoa não tivesse sido vacinada.
“Esse protocolo de farmacovigilância sempre existiu na imunização, e continuamos até hoje investigando e acompanhando qualquer caso relacionado temporalmente com a vacina HPV. Nosso objetivo, tanto do Ministério quanto das secretarias de Saúde e dos laboratórios produtores, é oferecer um produto seguro e de qualidade para a população”, reforça Renata Quiles.
Recuperação
Embora o episódio de 2017 tenha abalado a confiança da população na vacina, Renata também afirma que ele se tornou uma comprovação de sua segurança, já que tanto o imunizante quanto os eventos adversos foram “incansavelmente investigados”.
“Toda essa situação poderia ter sido traumática para mim, mas só me deu ainda mais segurança para confiar nessa vacina e continuar dizendo o quanto ela é importante para nossos jovens, porque por meio dela conseguiremos salvar muitas vidas.”
Graças ao trabalho constante e “de formiguinha” dos profissionais envolvidos com a política de vacinação, as coberturas voltaram a crescer no estado, mas “a lembrança do passado” persiste, principalmente na capital Rio Branco, onde ocorreu a maioria dos episódios, segundo Renata.
“O tempo passa e as coisas se acalmam. As pessoas viram que a vacina continuou sendo administrada e ninguém mais apresentou nada daquilo. Hoje conseguimos conversar e convencer. No passado, nem conversar conseguiríamos. A população acreana não é hesitante, ela gosta de se vacinar. Ela só se tornou seletiva.”
Um dos focos do trabalho de recuperação das coberturas é a formação dos profissionais de saúde, já que muitos também passaram a acreditar que a vacina oferecia riscos à população.
No início de maio, foi a vez de trabalhadores que atuam em aldeias indígenas e outras comunidades isoladas receberem uma capacitação que também abordou o tema dos efeitos adversos.
A enfermeira Evelin Plácido, CEO da empresa CapacitaImune e responsável pela capacitação, enfatiza que os profissionais também precisam ser treinados em técnicas de comunicação para que consigam transmitir as informações à população.
“Fui percebendo ao longo do tempo que não adianta ser um profissional excelente, conhecer tudo de vacina, entender sobre técnicas de aplicação, logística, ter o melhor equipamento, se você não souber se comunicar com as pessoas. Especialmente porque temos vivido um momento de alta na hesitação por causa da desinformação.”
Algumas estratégias inovadoras também têm contribuído. Em Porto Walter, cidade de 11 mil habitantes, na fronteira com o Peru, a cobertura em 2025 atingiu 72% entre as meninas e 68% entre os meninos.
O coordenador de Imunizações do município, Anderson Cleiton Baraúna, utilizou um argumento bastante persuasivo:
“Nós nos dirigimos às escolas para orientar os jovens sobre a vacina e também os convidamos para a primeira edição do Cinema da Imunização. Quando se vacinavam nas unidades, recebiam um ingresso para ver os filmes, com pipoca e refrigerante. E para aqueles que não puderam ir às unidades, colocamos uma equipe de prontidão na porta do cinema, que vacinava na hora, e eles já entravam para assistir ao filme.”
Anderson também defende que essas intervenções podem fazer frente à desinformação das redes:
“Para muitas pessoas, o que está no YouTube, no TikTok ou no Kwai contra as vacinas é como se fosse lei. É bastante complicado a gente entrar na mente das pessoas e convencê-las do contrário. Mas estamos trabalhando e conseguindo reverter o jogo. Com a orientação nas escolas e o cinema, vacinamos mais de 200 adolescentes. Foi um sucesso.”
Prevenção do câncer
Exemplos como o de Porto Walter e o lento aumento das coberturas no Acre e no Brasil demonstram que os malefícios da desinformação podem ser reversíveis, “mas são necessárias múltiplas estratégias combinadas durante um longo período de tempo para conseguir alguma melhora”, adverte a diretora da Sbim, Mayra Moura.
No entanto, vacinar todos os jovens contra o HPV é uma necessidade urgente. Um estudo recente revela que os cânceres causados pelo HPV matam cerca de 7,5 mil brasileiros por ano.
Somente o câncer de colo de útero, o mais prevalente deles, deve ter 19 mil novas ocorrências por ano entre 2026 e 2028. O Acre é o quinto estado com a maior taxa de incidência.
A vacina contra o HPV oferecida pelo SUS protege contra quatro tipos do vírus, incluindo o 16 e o 18, que são os de maior risco. Como 99% dos casos de câncer de colo do útero surgem após a infecção por HPV, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a doença pode ser eliminada com altas coberturas vacinais e rastreamento para descobrir as infecções já existentes antes que evoluam para a doença.
A vacinação também pode reduzir drasticamente os novos casos de outros tipos de câncer associados ao HPV. No SUS, ela está disponível para todas as meninas e meninos entre 9 e 14 anos, e também para pessoas imunodeprimidas, vítimas de abuso sexual, pessoas com papilomatose respiratória recorrente, usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e pacientes que já tiveram lesões pré-cancerosas de alto grau.
O Ministério da Saúde também instituiu o resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não receberam a vacina na idade recomendada. Mais de 217 mil jovens já foram imunizados.
*Equipe viajou ao estado a convite da farmacêutica MSD.
/Dê sua opinião
Qual o seu nível de satisfação em relação ao serviço público prestado?
Para participar desta enquete, realize o login em sua conta!
Login Cadastre-seNossas notícias
no celular

Bidhio Portal de Notícias
Comentários