A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, afirmou nesta sexta-feira (19) que a reestruturação do Poder Judiciário deve focar na edificação da confiança dos cidadãos na conduta dos magistrados, e não na busca por popularidade. Sua declaração, proferida no encerramento do evento "A Justiça do Amanhã" no Rio de Janeiro, ressaltou a importância da credibilidade como pilar fundamental.

O encontro no Rio de Janeiro promoveu debates cruciais sobre ética, transparência, eficiência e o futuro da Justiça brasileira, alinhando-se à visão da ministra sobre a necessidade de um Judiciário íntegro.

Para a magistrada, com duas décadas de atuação no STF, a legitimidade das decisões judiciais reside na certeza de que o juiz agiu com isenção e em estrito cumprimento das leis vigentes.

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"É imperativo estruturar um poder no qual a sociedade deposite sua confiança. Não busco que ela goste, pois é natural que quem perde uma causa não aprecie a decisão, e menos ainda quem a proferiu", explicou a ministra.

Cármen Lúcia complementou, destacando a essência de sua atuação: "O fundamental é que o indivíduo saiba que agi corretamente, em conformidade com a lei, e que meu único compromisso foi cumprir o juramento feito há 20 anos no STF: a Constituição e as leis da República."

Código de Ética: um caminho para a transparência

A pauta da confiança e transparência na atuação dos magistrados se conecta diretamente com o projeto de Código de Ética, do qual Cármen Lúcia é relatora. A criação dessa norma foi estabelecida como prioridade pelo ministro Edson Fachin, que a designou para a função no início deste ano.

A proposta, que ainda está em fase de elaboração, visa estabelecer limites e deveres claros para prevenir conflitos de interesse. Espera-se que inclua regulamentações sobre a participação de ministros em eventos e palestras promovidos por empresas com processos no STF, além de disciplinar a atuação de parentes de magistrados em escritórios de advocacia que litigam no tribunal.

Contexto da proposta

O debate sobre a necessidade de um código normativo para o tribunal ganhou força em meio a investigações envolvendo o Banco Master e menções a integrantes do STF. O ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, negou publicamente ter tido contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero.

Em um caso relacionado, o ministro Dias Toffoli se afastou da relatoria do inquérito sobre fraudes na mesma instituição financeira. O impedimento ocorreu após relatórios policiais indicarem irregularidades em um fundo de investimento associado ao banco, que adquiriu cotas de um empreendimento turístico do qual o magistrado é sócio.

Desafios internos na Corte

A aprovação do projeto ainda gera divergências entre os ministros nos bastidores, conforme revelou o ministro Edson Fachin. Discussões internas avaliam tanto a conveniência política do momento para a votação das regras quanto a viabilidade prática de sua fiscalização.

Entre os pontos de discórdia técnica, destaca-se a obrigatoriedade de divulgação prévia de compromissos acadêmicos e agendas de palestras dos ministros. Essa medida levanta preocupações sobre a segurança institucional dos magistrados, somando-se às discussões sobre regras específicas de impedimento em julgamentos.

FONTE/CRÉDITOS: Rafael Cardoso - Repórter da Agência Brasil