A doença falciforme, uma condição genética hereditária, manifesta-se de forma mais complexa do que a simples anemia comumente associada a ela. Especialistas como a hematologista Marimília Pita explicam que a doença afeta sistemicamente todos os órgãos, impactando a vida de até 100 mil brasileiros, conforme estimativas do Ministério da Saúde.

A anemia é, de fato, um dos primeiros sinais perceptíveis da doença falciforme. Essa condição decorre de uma alteração nas hemácias, ou glóbulos vermelhos, responsáveis pelo transporte de oxigênio. Em indivíduos afetados, essas células perdem seu formato discoide habitual, assemelhando-se a uma foice, o que lhes confere o nome "falciforme".

Devido à sua forma alongada e rígida, as hemácias falciformes têm uma vida útil reduzida em comparação com as células normais, que duram cerca de 120 dias. As hemácias falciformes se fragmentam em períodos muito mais curtos, levando a uma deficiência crônica de glóbulos vermelhos.

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Hemácias em forma de foice

A rigidez dessas hemácias anormais também impede a circulação fluida pelos vasos sanguíneos. Ao se quebrarem, elas podem obstruir pequenos vasos, impedindo o fluxo de oxigênio para os tecidos. Esse fenômeno resulta em "microinfartos" que podem afetar diversos órgãos, como coração e olhos, e levar à deterioração progressiva da função orgânica ao longo do tempo.

A consequência dessa má oxigenação é o desenvolvimento de complicações crônicas, como cardiopatias, pneumopatias e nefropatias, que se agravam com o avanço da idade do paciente.

Diagnóstico precoce pelo Teste do Pezinho

O diagnóstico da doença falciforme pode ser realizado precocemente através do Teste do Pezinho, exame neonatal obrigatório e gratuito que inclui a pesquisa de hemoglobina desde 1992. Um diagnóstico feito ainda na maternidade é crucial para uma evolução clínica mais favorável do paciente, especialmente na prevenção de infecções, uma das principais causas de mortalidade em crianças menores de 7 anos.

Embora a doença falciforme raramente tenha cura, o acompanhamento médico e o tratamento adequado podem atenuar significativamente seus sintomas. Em casos selecionados, o transplante de medula óssea representa uma opção curativa, desde que o paciente atenda aos critérios de elegibilidade e um doador compatível seja encontrado.

Crises de dor intensa

As crises de dor intensa são um sintoma característico da doença falciforme, provocadas pela obstrução de pequenos vasos sanguíneos pelas hemácias falciformes. Essa dor, frequentemente sentida nos ossos e articulações, pode manifestar-se em qualquer parte do corpo.

Em crianças, as crises podem afetar os vasos das mãos e pés, resultando em inchaço, vermelhidão e dor intensa. A intensidade dessas crises pode exigir internação em unidades de terapia intensiva (UTI) para manejo da dor com analgésicos potentes, como a morfina.

É lamentável que, em muitos casos, profissionais de saúde não estejam adequadamente preparados para gerenciar a dor aguda em pacientes falciformes. Um estudo internacional revelou que apenas 34% dos pacientes brasileiros recebem morfina durante crises, em comparação com 98% nos Estados Unidos e 99% no Canadá, evidenciando uma lacuna no cuidado.

Essa falta de manejo adequado da dor pode levar a um sofrimento prolongado e agravar o quadro clínico dos pacientes, que, muitas vezes, são estigmatizados como dependentes químicos por buscarem alívio para sua dor extrema.

Impacto do racismo estrutural

Além dos desafios físicos, pacientes com doença falciforme enfrentam o racismo estrutural. A condição é mais prevalente na população negra, devido à origem da mutação genética no continente africano. No Brasil, a doença falciforme frequentemente se cruza com questões socioeconômicas e raciais, exacerbando as dificuldades enfrentadas por esses indivíduos.

Contudo, a doença falciforme não se restringe à população negra nem ao continente africano, sendo uma condição global que afeta diversas etnias e regiões ao redor do mundo.

Histórias de superação

A história de Nilceia Alves Gomes da Silva e seu filho Agner Eduardo ilustra os desafios e a resiliência diante da doença falciforme. Agner foi diagnosticado tardiamente, mas com o apoio de sua mãe e o acesso a instituições de saúde, pôde seguir uma trajetória de vida bem-sucedida, tornando-se advogado.

Lucas Henrique Gama Nascimento, outro paciente com a doença falciforme, compartilha sua experiência de lidar com as limitações físicas e emocionais impostas pela condição. Sua jornada, marcada por internações frequentes e crises de dor, também é uma história de superação, culminando em sua formação acadêmica e na publicação de um livro de autoajuda.

Apesar de sequelas como a necrose no fêmur, que o afastou de sua área de atuação profissional, Lucas demonstra força e esperança, aguardando um novo transplante de medula e a colocação de uma prótese.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil ​